ROJAVA: a revolução que o Ocidente ignora

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Este texto, da autoria de Nico Ribas e Alaia Rotaeche, foi publicado originalmente no semanário digital La Linea de Fuego (http://lalineadefuegodig.com/2016/01/17/2316/).

O Curdistão é um território reclamado pelo povo curdo e que abarca zonas da Turquia, Síria, Iraque e Irão. Rojava situa-se entre o norte e o nordeste da Síria. O povo curdo é considerado o maior grupo étnico do Médio Oriente, com cerca de 30 milhões de pessoas, historicamente submetido a perseguições e genocídios. Há um século teve lugar o acordo de Sykes-Picot, no contexto da Primeira Guerra Mundial, momento histórico em que los curdos reivindicaram um Estado próprio. Em agosto de 1920 assina-se o tratado de paz de Sèvres entre o Império Otomano e as potências aliadas, que acorda um território político para a construção do Curdistão. Porém, em finais de julho de 1923 assinam-se os acordos de Lausana, que estabelecem as fronteiras da Turquia moderna e a aspiração curda ficou em papel molhado.

No quadro da Guerra Civil Síria, no conflito bélico que estalou em março de 2011, a região declara-se como autónoma e independente de facto na revolução de novembro de 2013. Em janeiro de 2014 aprovam e põem em funcionamento o “contrato social”, um termo não estatista usado em vez de “constituição”. Habitada por uma maioria curda, Rojava decidiu opor-se tanto a Bashar al Assad como à oposição síria, criando a sua particular utopia, em que anarquismo, ecologismo e feminismo convivem ao serviço da revolução. Organizam-se mediante assembleias baseadas no confederalismo democrático, conceito criado e desenvolvido por Abdullah Öcalan, líder curdo e presidente do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK). É uma organização civil baseada, como se disse, na democracia direta, com inclusão religiosa e étnica, ecologismo e feminismo; estes fatores combinam-se com o objetivo de chegar a uma sociedade justa e em paz.
Un grupo de meninos depois de cantar o hino de Rojava numa escola de Qamishli (Rojava). John Moore / Getty, via slate.com

O confederalismo democrático bebe de fontes políticas, filosóficas e antropológicas muito diversas. Em primeiro lugar é importante notar que as suas conceções estão sustentadas desde a base. Tal como explica David Graeber, antropólogo e anarquista norte-americano que conhece esta realidade em primeira mão, as forças de segurança são responsáveis perante as estruturas da base para o topo e não do topo para a base, como estabelecem as instituições de democracia direta como o TEV-DEM (Movimento da Sociedade Democrática). É uma estrutura não hierárquica, baseada na horizontalidade. Deste modo, as assembleias e os conselhos são o meio reconhecido para a construção do seu projeto político. Assim temos assembleias de rua, de bairro e de cidade, que respondem a uma assembleia geral democrática. La ideia é criar una matriz política através de comunas, com o objetivo de que o povo tenha poder de decisão e possa participar nas decisões políticas, económicas e sociais de forma eficaz. O nível político que se segue são os conselhos, até chegar ao Conselho Popular de Rojava. As comunidades formam-se de acordo com os distintos âmbitos da vida política, e as Unidades de Proteção Popular Curda (YPG) são o braço armado oficial do Comité Supremo Curdo, cujas milícias defendem o território reclamado por ele. Este facto é fundamental porque, ao ser um território não reconhecido pela comunidade internacional nem pelos seus países vizinhos, tem que defender-se daqueles que querem voltar a tomar o controlo do Curdistão.

Nova política, multiculturalismo e feminismo, chaves da nova sociedade

A forma de organização política curda ancora também as suas raízes na filosofia e nas ideias de Murray Bookchin, fundador da ecologia social ou anarquismo verde. Bookchin foi um historiador, professor universitário e investigador norte-americano. É um modelo descentralizado e localista que propõe a construção de uma sociedade ecológica, baseada no desenvolvimento sustentável entre a biotecnologia, a tecnologia adequada, a arquitetura sustentável e uma economia cooperativa. Lutam pela auto-suficiência, em parte porque não lhes resta outro remédio. Rojava vive debaixo de um bloqueio económico e não pode exportar nem importar do seu vizinho mais próximo, a Turquia, a qual gostaria de terminar com o projeto curdo. De facto, neste mesmo momento, a Turquia está a massacrar o povo curdo de forma deliberada, sem que haja resposta alguma por parte da ONU e da comunidade internacional.

Nesta Rojava revolucionária há lugar para todas as culturas, religiões e línguas. Ainda que a maioria dos seus habitantes sejam curdos, há um número importante de árabes, assírios, chechenos, arménios… y nos seus pontos chave estão tanto a separação do Estado (ainda que não haja um Estado como tal) e a religião, como o reconhecimento de todos os idiomas e de todas as religiões, a igualdade de oportunidades e a não discriminação. As minorias não curdas têm além disso as suas próprias instituições. De facto, nessas assembleias populares, multiculturais e multirreligiosas em que se tomam as decisões, os três máximos funcionários de cada municipalidade devem ser um árabe, um curdo e um cristão, e pelo menos um dos três deve ser uma mulher.
Combatentes das milícias do YPJ num campo militar em janeiro de 2015. Rodi Said/Reuters, via blogs.reuters.com

Este aspeto, o da mulher, é o epicentro desta nova sociedade. “A revolução em Rojava é uma revolução da mulher”, afirma Melike Yasar, representante do Movimento Internacional de Mulheres Curdas, numa reportagem do meio de comunicação “Resumen Latinoamericano”. E é verdade; o empoderamento da mulher é um objetivo chave. Não se trata de algo que siga paralelamente à revolução, mas antes isso constitui a revolução. Em Rojava, como afirma Daniel Graeber, vão mais além e creem honestamente nos valores feministas que, no Ocidente, não passam de teóricos. E traduzem-no em factos.

Algumas das “leis” fundamentais desta nova comunidade são claras nesse sentido. Proíbe-se o matrimónio antes dos 18 anos, a circuncisão feminina e a poligamia, e estabelece-se a igualdade entre o homem e a mulher; todas elas, medidas para combater o patriarcado existente tanto na sociedade oriental como, de forma mais velada e por isso não menos perigosa, no Ocidente. En Rojava, nas assembleias de tomada de decisões, na política, na vida militar, a mulher tem um papel imprescindível. “As mulheres são para esta revolução o que o proletariado foi para as revoluções marxistas-leninistas do século passado”, assinala a autora Janet Biehl numa reportagem para “Roar Magazine”.

Milicianos formados

As milícias recebem formação política e feminista e a educação joga um papel chave. Como assinala Melike Yasar, todas essas mulheres que levam uma arma entre as suas mãos também levam um lápis. A cultura e o empoderamento feminino, impulsionado também pelos homens, claro, vai lado a lado com a ação militar. A milícia Estrela YJA (União de Mulheres Livres) reúne todas essas mulheres,o que supõe uma dura resistência ao terrorismo do ISIS, resistência militar e ideológica. Neste sentido, muitos autores, entre eles o próprio Graeber, estabelecem um paralelismo entre estas milícias e as Brigadas Internacionais espanholas. Porém, apenas uns 10% das mulheres de Rojava combatem o ISIS; as restantes dedicam-se à construção política e dessa nova sociedade experimental.

Los curdos (e las minorias que vivem com eles) deram-se conta, nas palavras de Graeber, de que a verdadeira revolução e a construção de um novo modelo de sociedade passa pela libertação da mulher: “Não nos podemos desfazer do capitalismo sem eliminar o Estado, não nos podemos livrar do Estado sem nos livrarmos do patriarcado”. Porém, uma vez que é o epicentro da revolução, a libertação da mulher também é o seu problema mais complicado, já que algumas comunidades árabes sentem que isso viola alguns dos seus princípios religiosos. Todavia, para as instituições de democracia direta de Rojava (o TEV-DEM) tal é um passo incontornável para a mudança autêntica.
Milicianos da Ação Anarquista Revolucionária (DAF) preparam-se para combater o ISIS na frente de Kobane. Via crimethinc.com.

Kobane não tem valor estratégico para o ISIS, mas sim um valor propagandístico. Para ele é importante a propaganda da vitória. O ISIS luta não contra os curdos, mas sim para destruir este novo sistema. Ser derrotados por uma sociedade feminista, multicultural, sustentável… é a maior das humilhações para ele. Por isso é um objetivo chave para a organização terrorista. Tampouco o Ocidente, a Turquia, a Arábia Saudita, o Irão… querem que a experiência de Rojava tenha êxito, porque tal sacudiria todos os valores em que se cimenta a sociedade internacional atual.

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