{"id":62,"date":"2016-11-01T14:40:23","date_gmt":"2016-11-01T13:40:23","guid":{"rendered":"http:\/\/ervarebelde.noblogs.org\/?p=62"},"modified":"2016-11-01T15:13:11","modified_gmt":"2016-11-01T14:13:11","slug":"es-col-a-de-saberes-e-de-contradicoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ervarebelde.noblogs.org\/?p=62","title":{"rendered":"Es.Col.A. de saberes e de contradi\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-63 size-medium\" src=\"https:\/\/ervarebelde.noblogs.org\/files\/2016\/11\/EsColA_Gera_02-300x205.jpg\" alt=\"escola_gera_02\" width=\"300\" height=\"205\" srcset=\"https:\/\/ervarebelde.noblogs.org\/files\/2016\/11\/EsColA_Gera_02-300x205.jpg 300w, https:\/\/ervarebelde.noblogs.org\/files\/2016\/11\/EsColA_Gera_02-768x526.jpg 768w, https:\/\/ervarebelde.noblogs.org\/files\/2016\/11\/EsColA_Gera_02-1024x701.jpg 1024w, https:\/\/ervarebelde.noblogs.org\/files\/2016\/11\/EsColA_Gera_02.jpg 1490w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center\">Lu\u00eds Chambel<\/p>\n<p><span style=\"font-family: Tahoma,sans-serif\">Quando nos debru\u00e7amos sobre o processo de uma okupa &#8211; independentemente daquilo que \u00e9 a sua hist\u00f3ria e o seu impacto na vida dos protagonistas e ao seu redor &#8211; o nosso olhar sobre esse processo parte sempre da perspetiva de que a propriedade \u00e9 um roubo, tal como definiu Proudhon <sup><b>(<\/b><\/sup><sup><b>1)<\/b><\/sup>, ju\u00edzo esse que n\u00e3o \u00e9 partilhado por muitos dos nossos interlocutores, que podem contudo, num caso ou noutro, considerar justific\u00e1vel ou at\u00e9 positivo que se tenha agido para p\u00f4r de p\u00e9 um espa\u00e7o assim, resgatado \u00e0 completa inutilidade e, mesmo, \u00e0 degrada\u00e7\u00e3o f\u00edsica de materiais que o tempo e o desuso inevitavelmente acarretam.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Tahoma,sans-serif\">Saber o que pensam os nossos interlocutores e vizinhos deve merecer-nos algum cuidado? E se sim, esse modo de ler alheio deve tolher os nossos passos? Ou deve orientar melhor a maneira de fazer? \u00c9 isso que se aborda neste texto, na tentativa de que possa ser \u00fatil noutras circunst\u00e2ncias.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Tahoma,sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">Que lugar se deve deixar \u00e0 espontaneidade criativa e \u00e0 lideran\u00e7a na constru\u00e7\u00e3o de um processo? No caso Es.Col.A. nada seria poss\u00edvel sem o papel central que jogou um coletivo libert\u00e1rio, que embora enquanto grupo, fosse internamente bastante diverso, definiu, e bem, a orienta\u00e7\u00e3o e lideran\u00e7a da okupa. N\u00e3o apenas no impulso gerador, mas tamb\u00e9m na formula\u00e7\u00e3o de uma agenda que naturalmente, depois, a assembleia teria sempre de ratificar. O conhecimento de processos de estimula\u00e7\u00e3o e de decis\u00e3o assemble\u00e1rios e a experi\u00eancia organizativa tiveram aqui um papel central na condu\u00e7\u00e3o de um processo no qual a dire\u00e7\u00e3o n\u00e3o tinha um sentido de \u201ccomit\u00e9 central\u201d, mas em que sempre se submetia \u00e0s prerrogativas obtidas por consenso em assembleia ampla e devidamente anunciada. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Tahoma,sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">Um certo saber e engenho que transparece logo no primeiro momento de cristaliza\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia com a sua brilhante denomina\u00e7\u00e3o Es.Col.A. (e que n\u00e3o se pode copiar mecanicamente, claro).<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Tahoma,sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">As condi\u00e7\u00f5es externas de assentimento a desobedi\u00eancias ao postulado da propriedade privada s\u00e3o mut\u00e1veis e produto das ideias emergentes ou das experi\u00eancias transformadoras.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Tahoma,sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">Em condi\u00e7\u00f5es de aceitabilidade muito mais favor\u00e1veis do que de antem\u00e3o, ap\u00f3s o 25 de abril, conhecem-se experi\u00eancias de ocupa\u00e7\u00e3o em que os protagonistas, mesmo assim, numa fase de poderes policiais muito mais dilu\u00eddos, se reuniram \u00e0 noite, armados com o que podiam ter \u00e0 m\u00e3o, para irem proceder \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o pretendida. E, todavia, o vento soprava a favor, naquilo que era o sentimento geral. Mas n\u00e3o havia uma \u201ctradi\u00e7\u00e3o\u201d revolucion\u00e1ria estabelecida. Por isso o desuso torna mais dif\u00edcil avan\u00e7ar no que \u00e9 fraturante. E o uso s\u00f3 por si tamb\u00e9m n\u00e3o faz de qualquer processo que seja fraturante.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Tahoma,sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">Mas ser fraturante \u00e9, por sua vez, um valor em si?<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Tahoma,sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">Ocupar um espa\u00e7o s\u00f3 faz sentido ou porque isso permite viver livremente a nossa vida e os nossos projetos sem amarras, o que vale s\u00f3 por si, ou porque, al\u00e9m de tudo isso, ainda permite p\u00f4r de p\u00e9 um espa\u00e7o social.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Tahoma,sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">O projeto social libert\u00e1rio, todavia, n\u00e3o \u00e9 processo afim ao protagonizado pelos cat\u00f3licos ou os comunistas, aqui n\u00e3o h\u00e1 de um lado os protagonistas e do outro os destinat\u00e1rios, social e assistencial s\u00e3o coisas diversas e uma confus\u00e3o acerca deste aspeto n\u00e3o deve ter lugar entre n\u00f3s. O espa\u00e7o deve ser \u201cfeito\u201d por todos, em plano decis\u00f3rio horizontal.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Tahoma,sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">Analisar o projeto Es.Col.A. \u00e9 mais uma vez elucidativo quanto a isto. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Tahoma,sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">Mas \u00e9 tamb\u00e9m claro que na aus\u00eancia de um programa de autodetermina\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria interiorizado, o que \u00e9 mais f\u00e1cil \u00e9 sempre esperar que algu\u00e9m fa\u00e7a por n\u00f3s. Por exemplo, quem se disponibiliza para ir reciclar a comida ao mercado? E quem a come?<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Tahoma,sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">Tamb\u00e9m \u00e9 certo que sem meios pr\u00f3prios de locomo\u00e7\u00e3o \u00e0 dist\u00e2ncia as solu\u00e7\u00f5es podem tornar-se mais dif\u00edceis. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Tahoma,sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">E se o espa\u00e7o \u00e9 social, deveremos impor o nosso modo de vida ou apenas partilh\u00e1-lo, para que possa ser aprendido? Como as escolhas alimentares, por exemplo.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Tahoma,sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">Quest\u00e3o diferente ser\u00e3o as desigualdades ou imposi\u00e7\u00f5es de g\u00e9nero, autodetermina\u00e7\u00e3o sexual, ou at\u00e9 de prefer\u00eancia de estatuto social (em escala id\u00eantica ou invertida do modelo dominante). Aqui o combate deve ser implac\u00e1vel, ainda que se deva sempre fundamentar. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Tahoma,sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">E depois, o s\u00edtio que se ocupa \u00e9 sobretudo um espa\u00e7o de habita\u00e7\u00e3o, ou um espa\u00e7o para o projeto social? No caso de uma escola, quer a funcionalidade que se pretendia reaver, quer o tal olhar dos interlocutores pr\u00f3ximos, determinante em grande parte para a aceita\u00e7\u00e3o plena do projeto, apontava evidentemente para a exclus\u00e3o do espa\u00e7o habitado.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Tahoma,sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">Ainda que nada haja de conflituoso entre o habitar \u00e0 noite e o formar de dia. Ainda que possam ser aduzidas raz\u00f5es de seguran\u00e7a do espa\u00e7o para aceitar a habitabilidade.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Tahoma,sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">Mas todas as escolhas t\u00eam que ser pesadas nas suas consequ\u00eancias.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Tahoma,sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">A quest\u00e3o do recurso ao dinheiro foi outra das discuss\u00f5es que perpassaram no processo Es.Col.A., que este foi capaz de levar a bom porto, sempre por meio da discuss\u00e3o aberta em assembleia.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Tahoma,sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">Uma das raz\u00f5es que explicam o \u00eaxito do projeto Es.Col.A. prende-se com a presen\u00e7a entre os protagonistas da ocupa\u00e7\u00e3o de uma fra\u00e7\u00e3o libert\u00e1ria local, enraizada minimamente no bairro. A exist\u00eancia desta fra\u00e7\u00e3o, acompanhada da mem\u00f3ria sens\u00edvel das pessoas sobre um espa\u00e7o a que estiveram ligadas, fez meio caminho do interesse gerado \u00e0 volta desta okupa. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Tahoma,sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">Outra das raz\u00f5es evidentes do \u00eaxito alcan\u00e7ado pelo projeto Es.Col.A. repousa no seu cuidado com a comunica\u00e7\u00e3o. No fundamental, o projeto Es.Col.A. foi o porta-voz do projeto Es.Col.A. Evidentemente que o seu princ\u00edpio de n\u00e3o exclus\u00e3o por raz\u00f5es ideol\u00f3gicas acabou por trazer ao espa\u00e7o muito \u201camigos\u201d que n\u00e3o deixariam de faturar o projeto a seu favor, caso o pudessem, num jogo pol\u00edtico de afirma\u00e7\u00e3o da sua influ\u00eancia, quer junto dos seus observadores do seu pr\u00f3prio partido, quer junto de potenciais eleitores. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Tahoma,sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">Assim, jornalistas, pol\u00edticos e outros foram tamb\u00e9m tentando intervir em nome do Es.Col.A., quer por interesses de agenda pr\u00f3pria, quer num caso ou noutro muito residual, por solidariedade genu\u00edna.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Tahoma,sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">A grande manifesta\u00e7\u00e3o do 1\u00ba de maio n\u00e3o pode ser retirada deste contexto, ela acabou por exprimir n\u00e3o o crescendo da influ\u00eancia libert\u00e1ria sobre as ideias e o modo de vida real das pessoas, alterando, pouco ou muito, o seu quotidiano, mas mais uma ampla \u201cunidade de esquerda\u201d dos opositores \u00e0 pol\u00edtica vigente da C\u00e2mara Municipal do Porto, ou at\u00e9 mais expressamente a oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 pessoa de Rui Rio. Ora, para este \u201cprograma\u201d, o Es.Col.A., era mais uma acha para a fogueira, que interessava a variadas for\u00e7as pol\u00edticas, sobretudo quando iam ficando cada vez mais pr\u00f3ximas as elei\u00e7\u00f5es para a autarquia.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Tahoma,sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">A bo\u00e7al atitude dos poderes municipais face ao projeto facilitou este alargamento do \u201capoio\u201d. \u00c9 l\u00f3gico que com esta pol\u00edtica municipal qualquer possibilidade de compromisso era restrita. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Tahoma,sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">A exist\u00eancia de uma associa\u00e7\u00e3o constitu\u00edda implicava a aceita\u00e7\u00e3o claramente expressa de que este era apenas um meio legal de resist\u00eancia, e n\u00e3o um m\u00e9todo de decis\u00e3o e dire\u00e7\u00e3o do processo. Os interlocutores (em delega\u00e7\u00e3o do Es.Col.A.) com as autoridades civis tendo sempre que respeitar o mandato da assembleia claramente expresso, sem qualquer poder para al\u00e9m disso. O que ali\u00e1s foi respeitado sempre, pelo menos nos primeiros contactos formais. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Tahoma,sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">E deveriam estes ter existido? Ou isso foi um erro, pois a \u00fanica forma aceit\u00e1vel de defender o projeto era o confronto? Mas o confronto, nestas condi\u00e7\u00f5es sociais de compreens\u00e3o e disponibilidade para a luta, n\u00e3o era fatalmente, o vazio? O vazio tal como \u00e9 hoje, mascarado de centro de recursos?<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Tahoma,sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">Antecipando j\u00e1 o aproveitamento pol\u00edtico do projeto, e rebelando-se contra isso, uma parte dessa fra\u00e7\u00e3o libert\u00e1ria local acabou por deslizar para a facilidade de \u201cinstitucionalizar\u201d o espa\u00e7o como \u201clibert\u00e1rio\u201d. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Tahoma,sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">Marcou-o assim, visualmente e, com isso, criou uma fratura quer junto daqueles que, com uma perspetiva libert\u00e1ria se opuseram a essa forma de institucionalizar uma apropria\u00e7\u00e3o, quer junto dos que n\u00e3o estando pr\u00f3ximos ideologicamente, se sentiram em espa\u00e7o alheio e por isso mais se afastaram, ou finalmente aproveitaram o pretexto \u00f3timo para o poder fazer sem m\u00e1 consci\u00eancia.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Tahoma,sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">E isto ainda que os protagonistas n\u00e3o tivessem uma inten\u00e7\u00e3o de proselitismo, mas apenas quisessem afirmar a sua identidade de opositores a todas as formas de aproveitamento pol\u00edtico.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Tahoma,sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">A cis\u00e3o ent\u00e3o criada debilitou em muito a for\u00e7a p\u00fablica do projeto (que s\u00f3 foi, de novo, refor\u00e7ada, quando a ofensiva policial se afigurou iminente), embora a\u00ed tivesse ocorrido uma curiosa situa\u00e7\u00e3o na qual \u00e9 preciso refletir. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Tahoma,sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">Vendo afastaram-se os elementos externos ao bairro, contra os quais ali\u00e1s, tamb\u00e9m pendia uma resist\u00eancia surda, porque sendo muito capazes a n\u00edvel das ideias gerais, n\u00e3o sendo do bairro a sua participa\u00e7\u00e3o f\u00edsica manual na manuten\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o se tornava mais dif\u00edcil e os desprestigiava em favor de outros (a velha quest\u00e3o de \u201cfalar muito mas n\u00e3o fazer nada\u201d, sem um cuidado criterioso na avalia\u00e7\u00e3o dos contributos poss\u00edveis de cada um), verificou-se uma interioriza\u00e7\u00e3o maior do espa\u00e7o enquanto seu por parte de uma fra\u00e7\u00e3o local de jovens sem identifica\u00e7\u00e3o libert\u00e1ria anterior (ou posterior).<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Tahoma,sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">Nunca como ent\u00e3o \u2013 talvez porque foi poss\u00edvel, no entretanto, realizar os seus sonhos no espa\u00e7o, como o gin\u00e1sio, por exemplo \u2013 a participa\u00e7\u00e3o desses jovens na assembleia foi t\u00e3o efetiva e real, assumindo o projeto mais profundamente, al\u00e9m de responsabilidades volunt\u00e1rias na sua defesa. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Tahoma,sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">E isto volta a colocar em cima da mesa a discuss\u00e3o da inutilidade ou n\u00e3o de compromissos, da import\u00e2ncia de afirmar um projeto de transforma\u00e7\u00e3o real do quotidiano das pessoas, atrav\u00e9s da novidade da partilha trazida \u00e0s suas vidas. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Tahoma,sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">A quest\u00e3o que se coloca \u00e9 a de fazer disso uma alavanca para a compreens\u00e3o do mundo a que se pertence ou deixar-se ficar numa ilha. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Tahoma,sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">Isso implica tamb\u00e9m a disponibilidade para o di\u00e1logo com os contr\u00e1rios, mas sem abdicar da luta para desmontar a organiza\u00e7\u00e3o social dominante, numa resist\u00eancia que tem que ser inteligente e apropriada a cada caso, sem desfalecimento, permanente, prop\u00edcia ao fortalecimento de uma corrente que v\u00e1 alicer\u00e7ando a insurrei\u00e7\u00e3o de uma maneira s\u00f3lida \u2013 criando alternativas de vida, que podem passar pelas mais variadas formas, por exemplo publicando um jornal, gerindo em comum um ateneu, organizando jovens, formando uma banda, cultivando um terreno, fazendo BD, apoiando a luta laboral, etc., etc., etc.. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Tahoma,sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">LC<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Tahoma,sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\"><sup><b>(1)<\/b><\/sup> \u201cSe eu tivesse de responder \u00e0 seguinte quest\u00e3o: o que \u00e9 a escravid\u00e3o? E a respondesse numa \u00fanica palavra: \u00e9 um assassinato, meu pensamento seria logo compreendido. Eu n\u00e3o teria necessidade de um longo discurso para mostrar que o poder de tirar ao homem o pensamento, a vontade, a personalidade \u00e9 um poder de vida e de morte, e que fazer um homem escravo \u00e9 assassin\u00e1-lo. Por que ent\u00e3o a esta outra pergunta: o que \u00e9 a propriedade? N\u00e3o posso eu responder da mesma maneira: \u00e9 um roubo, sem ter a certeza de n\u00e3o ser entendido, embora esta segunda proposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o seja sen\u00e3o a primeira transformada? Eu tento discutir a pr\u00f3pria origem de nosso governo e de nossas institui\u00e7\u00f5es, a propriedade\u201d (Proudhon, \u201cO que \u00e9 a Propriedade?\u201d).<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Tahoma,sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">Tudo isto \u00e9 ainda mais entend\u00edvel em Kropotkin, cujas ideias, contudo, diferem em muito das de Proudhon: \u201c(\u2026) Para que o bem-estar seja uma realidade \u00e9 necess\u00e1rio que esse imenso capital: cidades, casas, campos, oficinas, vias de comunica\u00e7\u00e3o, deixe de ser considerado propriedade privada de que o a\u00e7ambarcador disp\u00f5e ao seu bel-prazer. \u00c9 preciso que tudo isso, obtido com tanto trabalho, se torne propriedade comum\u201d (Kropotkin, \u201cA Conquista do P\u00e3o\u201d).<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Tahoma,sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">Faz alguma diferen\u00e7a conhecer e concordar na ess\u00eancia com estas ideias? Faz alguma diferen\u00e7a saber que pontos de vista um e outro advogavam, embora distintamente? E porque, no essencial, apesar de tudo, diferiam de Marx? <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Tahoma,sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">Adianta isto alguma coisa \u00e0 compreens\u00e3o do processo de uma okupa pela nossa parte e pela parte dos nossos interlocutores? Ao caminho que ela vai trilhando?<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Tahoma,sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">E n\u00e3o s\u00e3o, sobretudo, ideias de antigamente? Ou melhor, \u00e9 poss\u00edvel que junto com outras reflex\u00f5es mais atuais aquelas ajudem a perceber o mundo em que vivemos?<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Tahoma,sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">E ainda: \u00e9 uma inutilidade refletir porque \u00e9 que os anarquistas recorrem regularmente ao arsenal te\u00f3rico de Marx, desconhecendo (ou n\u00e3o querendo sequer conhecer) as propostas de teoria econ\u00f3mica libert\u00e1rias na desmontagem dos mecanismos de extors\u00e3o, ainda que por vezes contradit\u00f3rias?<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Tahoma,sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">Ainda assim sabemos hoje muito bem aonde nos conduziram as propostas de Marx. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Tahoma,sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">Mas o levantar no ar de uma reflex\u00e3o j\u00e1 cl\u00e1ssica, mecanicamente, n\u00e3o pode tornar-se uma esp\u00e9cie de propaganda ao estilo de guarda vermelho da chamada revolu\u00e7\u00e3o cultural chinesa, agitando no ar os escritos anarquistas como se fossem as cita\u00e7\u00f5es de Mao?<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Tahoma,sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">E, tamb\u00e9m por outro lado, a teoria n\u00e3o pode tornar-se uma salvaguarda que preserve de toda a a\u00e7\u00e3o?<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Tahoma,sans-serif\"><span style=\"font-size: medium\">Qu\u00ea?<\/span><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lu\u00eds Chambel Quando nos debru\u00e7amos sobre o processo de uma okupa &#8211; independentemente daquilo que \u00e9 a sua hist\u00f3ria e o seu impacto na vida dos protagonistas e ao seu redor &#8211; o nosso olhar sobre esse processo parte sempre da perspetiva de que a propriedade \u00e9 um roubo, tal como definiu Proudhon (1), ju\u00edzo [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":11202,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-62","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ervarebelde.noblogs.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/62","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ervarebelde.noblogs.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ervarebelde.noblogs.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ervarebelde.noblogs.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/11202"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ervarebelde.noblogs.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=62"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/ervarebelde.noblogs.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/62\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":72,"href":"https:\/\/ervarebelde.noblogs.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/62\/revisions\/72"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ervarebelde.noblogs.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=62"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ervarebelde.noblogs.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=62"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ervarebelde.noblogs.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=62"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}