{"id":55,"date":"2016-11-01T14:18:03","date_gmt":"2016-11-01T13:18:03","guid":{"rendered":"http:\/\/ervarebelde.noblogs.org\/?p=55"},"modified":"2016-11-01T19:51:14","modified_gmt":"2016-11-01T18:51:14","slug":"rojava-a-revolucao-que-o-ocidente-ignora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ervarebelde.noblogs.org\/?p=55","title":{"rendered":"ROJAVA: a revolu\u00e7\u00e3o que o Ocidente ignora"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-77\" src=\"https:\/\/ervarebelde.noblogs.org\/files\/2016\/11\/rojava02-300x201.jpg\" alt=\"rojava02\" width=\"300\" height=\"201\" srcset=\"https:\/\/ervarebelde.noblogs.org\/files\/2016\/11\/rojava02-300x201.jpg 300w, https:\/\/ervarebelde.noblogs.org\/files\/2016\/11\/rojava02-768x515.jpg 768w, https:\/\/ervarebelde.noblogs.org\/files\/2016\/11\/rojava02.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p><em>Este texto, da autoria de Nico Ribas e Alaia Rotaeche, foi publicado originalmente no seman\u00e1rio digital <a href=\"http:\/\/lalineadefuegodig.com\/2016\/01\/17\/2316\/\" target=\"_blank\">La Linea de Fuego<\/a> (<\/em><em><a href=\"http:\/\/lalineadefuegodig.com\/2016\/01\/17\/2316\/\" target=\"_blank\">http:\/\/lalineadefuegodig.com\/2016\/01\/17\/2316\/<\/a><\/em><em>).<\/em><\/p>\n<p>O Curdist\u00e3o \u00e9 um territ\u00f3rio reclamado pelo povo curdo e que abarca zonas da Turquia, S\u00edria, Iraque e Ir\u00e3o. Rojava situa-se entre o norte e o nordeste da S\u00edria. O povo curdo \u00e9 considerado o maior grupo \u00e9tnico do M\u00e9dio Oriente, com cerca de 30 milh\u00f5es de pessoas, historicamente submetido a persegui\u00e7\u00f5es e genoc\u00eddios. H\u00e1 um s\u00e9culo teve lugar o acordo de Sykes-Picot, no contexto da Primeira Guerra Mundial, momento hist\u00f3rico em que los curdos reivindicaram um Estado pr\u00f3prio. Em agosto de 1920 assina-se o tratado de paz de S\u00e8vres entre o Imp\u00e9rio Otomano e as pot\u00eancias aliadas, que acorda um territ\u00f3rio pol\u00edtico para a constru\u00e7\u00e3o do Curdist\u00e3o. Por\u00e9m, em finais de julho de 1923 assinam-se os acordos de Lausana, que estabelecem as fronteiras da Turquia moderna e a aspira\u00e7\u00e3o curda ficou em papel molhado.<\/p>\n<p>No quadro da Guerra Civil S\u00edria, no conflito b\u00e9lico que estalou em mar\u00e7o de 2011, a regi\u00e3o declara-se como aut\u00f3noma e independente de facto na revolu\u00e7\u00e3o de novembro de 2013. Em janeiro de 2014 aprovam e p\u00f5em em funcionamento o \u201ccontrato social\u201d, um termo n\u00e3o estatista usado em vez de \u201cconstitui\u00e7\u00e3o\u201d. Habitada por uma maioria curda, Rojava decidiu opor-se tanto a Bashar al Assad como \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o s\u00edria, criando a sua particular utopia, em que anarquismo, ecologismo e feminismo convivem ao servi\u00e7o da revolu\u00e7\u00e3o. Organizam-se mediante assembleias baseadas no confederalismo democr\u00e1tico, conceito criado e desenvolvido por Abdullah \u00d6calan, l\u00edder curdo e presidente do Partido dos Trabalhadores do Curdist\u00e3o (PKK). \u00c9 uma organiza\u00e7\u00e3o civil baseada, como se disse, na democracia direta, com inclus\u00e3o religiosa e \u00e9tnica, ecologismo e feminismo; estes fatores combinam-se com o objetivo de chegar a uma sociedade justa e em paz.<br \/>\nUn grupo de meninos depois de cantar o hino de Rojava numa escola de Qamishli (Rojava). John Moore \/ Getty, via slate.com<\/p>\n<p>O confederalismo democr\u00e1tico bebe de fontes pol\u00edticas, filos\u00f3ficas e antropol\u00f3gicas muito diversas. Em primeiro lugar \u00e9 importante notar que as suas conce\u00e7\u00f5es est\u00e3o sustentadas desde a base. Tal como explica David Graeber, antrop\u00f3logo e anarquista norte-americano que conhece esta realidade em primeira m\u00e3o, as for\u00e7as de seguran\u00e7a s\u00e3o respons\u00e1veis perante as estruturas da base para o topo e n\u00e3o do topo para a base, como estabelecem as institui\u00e7\u00f5es de democracia direta como o TEV-DEM (Movimento da Sociedade Democr\u00e1tica). \u00c9 uma estrutura n\u00e3o hier\u00e1rquica, baseada na horizontalidade. Deste modo, as assembleias e os conselhos s\u00e3o o meio reconhecido para a constru\u00e7\u00e3o do seu projeto pol\u00edtico. Assim temos assembleias de rua, de bairro e de cidade, que respondem a uma assembleia geral democr\u00e1tica. La ideia \u00e9 criar una matriz pol\u00edtica atrav\u00e9s de comunas, com o objetivo de que o povo tenha poder de decis\u00e3o e possa participar nas decis\u00f5es pol\u00edticas, econ\u00f3micas e sociais de forma eficaz. O n\u00edvel pol\u00edtico que se segue s\u00e3o os conselhos, at\u00e9 chegar ao Conselho Popular de Rojava. As comunidades formam-se de acordo com os distintos \u00e2mbitos da vida pol\u00edtica, e as Unidades de Prote\u00e7\u00e3o Popular Curda (YPG) s\u00e3o o bra\u00e7o armado oficial do Comit\u00e9 Supremo Curdo, cujas mil\u00edcias defendem o territ\u00f3rio reclamado por ele. Este facto \u00e9 fundamental porque, ao ser um territ\u00f3rio n\u00e3o reconhecido pela comunidade internacional nem pelos seus pa\u00edses vizinhos, tem que defender-se daqueles que querem voltar a tomar o controlo do Curdist\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>N<\/strong><strong>o<\/strong><strong>va pol\u00edtica, multiculturalismo <\/strong><strong>e<\/strong><strong> feminismo, c<\/strong><strong>h<\/strong><strong>aves da n<\/strong><strong>o<\/strong><strong>va sociedad<\/strong><strong>e<\/strong><\/p>\n<p>A forma de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica curda ancora tamb\u00e9m as suas ra\u00edzes na filosofia e nas ideias de Murray Bookchin, fundador da ecologia social ou anarquismo verde. Bookchin foi um historiador, professor universit\u00e1rio e investigador norte-americano. \u00c9 um modelo descentralizado e localista que prop\u00f5e a constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade ecol\u00f3gica, baseada no desenvolvimento sustent\u00e1vel entre a biotecnologia, a tecnologia adequada, a arquitetura sustent\u00e1vel e uma economia cooperativa. Lutam pela auto-sufici\u00eancia, em parte porque n\u00e3o lhes resta outro rem\u00e9dio. Rojava vive debaixo de um bloqueio econ\u00f3mico e n\u00e3o pode exportar nem importar do seu vizinho mais pr\u00f3ximo, a Turquia, a qual gostaria de terminar com o projeto curdo. De facto, neste mesmo momento, a Turquia est\u00e1 a massacrar o povo curdo de forma deliberada, sem que haja resposta alguma por parte da ONU e da comunidade internacional.<\/p>\n<p>Nesta Rojava revolucion\u00e1ria h\u00e1 lugar para todas as culturas, religi\u00f5es e l\u00ednguas. Ainda que a maioria dos seus habitantes sejam curdos, h\u00e1 um n\u00famero importante de \u00e1rabes, ass\u00edrios, chechenos, arm\u00e9nios\u2026 y nos seus pontos chave est\u00e3o tanto a separa\u00e7\u00e3o do Estado (ainda que n\u00e3o haja um Estado como tal) e a religi\u00e3o, como o reconhecimento de todos os idiomas e de todas as religi\u00f5es, a igualdade de oportunidades e a n\u00e3o discrimina\u00e7\u00e3o. As minorias n\u00e3o curdas t\u00eam al\u00e9m disso as suas pr\u00f3prias institui\u00e7\u00f5es. De facto, nessas assembleias populares, multiculturais e multirreligiosas em que se tomam as decis\u00f5es, os tr\u00eas m\u00e1ximos funcion\u00e1rios de cada municipalidade devem ser um \u00e1rabe, um curdo e um crist\u00e3o, e pelo menos um dos tr\u00eas deve ser uma mulher.<br \/>\nCombatentes das mil\u00edcias do YPJ num campo militar em janeiro de 2015. Rodi Said\/Reuters, via blogs.reuters.com<\/p>\n<p>Este aspeto, o da mulher, \u00e9 o epicentro desta nova sociedade. \u201cA revolu\u00e7\u00e3o em Rojava \u00e9 uma revolu\u00e7\u00e3o da mulher\u201d, afirma Melike Yasar, representante do Movimento Internacional de Mulheres Curdas, numa reportagem do meio de comunica\u00e7\u00e3o \u201cResumen Latinoamericano\u201d. E \u00e9 verdade; o empoderamento da mulher \u00e9 um objetivo chave. N\u00e3o se trata de algo que siga paralelamente \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o, mas antes isso constitui a revolu\u00e7\u00e3o. Em Rojava, como afirma Daniel Graeber, v\u00e3o mais al\u00e9m e creem honestamente nos valores feministas que, no Ocidente, n\u00e3o passam de te\u00f3ricos. E traduzem-no em factos.<\/p>\n<p>Algumas das \u201cleis\u201d fundamentais desta nova comunidade s\u00e3o claras nesse sentido. Pro\u00edbe-se o matrim\u00f3nio antes dos 18 anos, a circuncis\u00e3o feminina e a poligamia, e estabelece-se a igualdade entre o homem e a mulher; todas elas, medidas para combater o patriarcado existente tanto na sociedade oriental como, de forma mais velada e por isso n\u00e3o menos perigosa, no Ocidente. En Rojava, nas assembleias de tomada de decis\u00f5es, na pol\u00edtica, na vida militar, a mulher tem um papel imprescind\u00edvel. \u201cAs mulheres s\u00e3o para esta revolu\u00e7\u00e3o o que o proletariado foi para as revolu\u00e7\u00f5es marxistas-leninistas do s\u00e9culo passado\u201d, assinala a autora Janet Biehl numa reportagem para \u201cRoar Magazine\u201d.<\/p>\n<p><strong>Milicianos formados<\/strong><\/p>\n<p>As mil\u00edcias recebem forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e feminista e a educa\u00e7\u00e3o joga um papel chave. Como assinala Melike Yasar, todas essas mulheres que levam uma arma entre as suas m\u00e3os tamb\u00e9m levam um l\u00e1pis. A cultura e o empoderamento feminino, impulsionado tamb\u00e9m pelos homens, claro, vai lado a lado com a a\u00e7\u00e3o militar. A mil\u00edcia Estrela YJA (Uni\u00e3o de Mulheres Livres) re\u00fane todas essas mulheres,o que sup\u00f5e uma dura resist\u00eancia ao terrorismo do ISIS, resist\u00eancia militar e ideol\u00f3gica. Neste sentido, muitos autores, entre eles o pr\u00f3prio Graeber, estabelecem um paralelismo entre estas mil\u00edcias e as Brigadas Internacionais espanholas. Por\u00e9m, apenas uns 10% das mulheres de Rojava combatem o ISIS; as restantes dedicam-se \u00e0 constru\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e dessa nova sociedade experimental.<\/p>\n<p>Los curdos (e las minorias que vivem com eles) deram-se conta, nas palavras de Graeber, de que a verdadeira revolu\u00e7\u00e3o e a constru\u00e7\u00e3o de um novo modelo de sociedade passa pela liberta\u00e7\u00e3o da mulher: \u201cN\u00e3o nos podemos desfazer do capitalismo sem eliminar o Estado, n\u00e3o nos podemos livrar do Estado sem nos livrarmos do patriarcado\u201d. Por\u00e9m, uma vez que \u00e9 o epicentro da revolu\u00e7\u00e3o, a liberta\u00e7\u00e3o da mulher tamb\u00e9m \u00e9 o seu problema mais complicado, j\u00e1 que algumas comunidades \u00e1rabes sentem que isso viola alguns dos seus princ\u00edpios religiosos. Todavia, para as institui\u00e7\u00f5es de democracia direta de Rojava (o TEV-DEM) tal \u00e9 um passo incontorn\u00e1vel para a mudan\u00e7a aut\u00eantica.<br \/>\nMilicianos da A\u00e7\u00e3o Anarquista Revolucion\u00e1ria (DAF) preparam-se para combater o ISIS na frente de Kobane. Via crimethinc.com.<\/p>\n<p>Kobane n\u00e3o tem valor estrat\u00e9gico para o ISIS, mas sim um valor propagand\u00edstico. Para ele \u00e9 importante a propaganda da vit\u00f3ria. O ISIS luta n\u00e3o contra os curdos, mas sim para destruir este novo sistema. Ser derrotados por uma sociedade feminista, multicultural, sustent\u00e1vel\u2026 \u00e9 a maior das humilha\u00e7\u00f5es para ele. Por isso \u00e9 um objetivo chave para a organiza\u00e7\u00e3o terrorista. Tampouco o Ocidente, a Turquia, a Ar\u00e1bia Saudita, o Ir\u00e3o\u2026 querem que a experi\u00eancia de Rojava tenha \u00eaxito, porque tal sacudiria todos os valores em que se cimenta a sociedade internacional atual.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este texto, da autoria de Nico Ribas e Alaia Rotaeche, foi publicado originalmente no seman\u00e1rio digital La Linea de Fuego (http:\/\/lalineadefuegodig.com\/2016\/01\/17\/2316\/). O Curdist\u00e3o \u00e9 um territ\u00f3rio reclamado pelo povo curdo e que abarca zonas da Turquia, S\u00edria, Iraque e Ir\u00e3o. Rojava situa-se entre o norte e o nordeste da S\u00edria. 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