{"id":107,"date":"2016-11-01T19:31:22","date_gmt":"2016-11-01T18:31:22","guid":{"rendered":"http:\/\/ervarebelde.noblogs.org\/?p=107"},"modified":"2017-06-25T14:26:00","modified_gmt":"2017-06-25T13:26:00","slug":"calais-terra-queimada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ervarebelde.noblogs.org\/?p=107","title":{"rendered":"Calais, terra queimada"},"content":{"rendered":"<p class=\"western\" align=\"center\"><span style=\"font-family: Impact\"><span style=\"font-size: x-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-108\" src=\"https:\/\/ervarebelde.noblogs.org\/files\/2016\/11\/Calais-03-300x225.jpg\" alt=\"calais-03\" width=\"300\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/ervarebelde.noblogs.org\/files\/2016\/11\/Calais-03-300x225.jpg 300w, https:\/\/ervarebelde.noblogs.org\/files\/2016\/11\/Calais-03-768x576.jpg 768w, https:\/\/ervarebelde.noblogs.org\/files\/2016\/11\/Calais-03-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/ervarebelde.noblogs.org\/files\/2016\/11\/Calais-03.jpg 1240w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/span><\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"center\"><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\">Hugo Dos Santos e Pedro Fidalgo<\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\"><b>Imposs\u00edvel compreender a situa\u00e7\u00e3o dos migrantes de Calais sem ter em conta o territ\u00f3rio. Ao mesmo tempo fronteira, zona industrial empobrecida e campo de experimenta\u00e7\u00e3o de um Estado Policial, esta cidade do Norte da Fran\u00e7a est\u00e1 recheada de tens\u00f5es bem fora do comum.<\/b><\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\">\u00c9 bastante revelador que o maior bairro da lata de Fran\u00e7a se pare\u00e7a com uma aldeia. A famosa \u201cJungle\u201d de Calais. Composta de centenas de barracas de madeira e com tendas instaladas ao longo de uma zona classificada Seveso<\/span><sup><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\">1<\/span><\/sup><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\"> com mais de 400 hectares, entalada entre o mar, a zona industrial e uma via de auto-estrada que desemboca no terminal de Ferries que, por sua vez, faz correspond\u00eancia com Dover, 6000 migrantes sobrevivem organizados esperando uma oportunidade para passar para o Reino Unido.<\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\">Numa v\u00e1rzea erodida pelo vento, associa\u00e7\u00f5es humanit\u00e1rias e colectivos militantes contribu\u00edram para a cria\u00e7\u00e3o de um lugar bem estruturado, uma aut\u00eantica cidade, mas em cima da lama. A avenida principal, que os migrantes chamaram ironicamente de \u201cChamps-Elys\u00e9es\u201d est\u00e1 repleta de mercearias e restaurantes afeg\u00e3os. Tamb\u00e9m outras ruas consideradas principais t\u00eam nomes pintados \u00e0 m\u00e3o em placas improvisadas. Quem visita a \u201cJungle\u201d com certeza n\u00e3o se perde. H\u00e1 uma escola (com aulas de Ingl\u00eas e Franc\u00eas), uma biblioteca (\u201cJungle Book\u201d), um centro de informa\u00e7\u00e3o para residentes, uma r\u00e1dio (\u201cJungala Radio\u201d), um teatro, enfim, numa grande tenda em <\/span><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\">c\u00fapula diversas actividades s\u00e3o propostas, e at\u00e9 h\u00e1 discotecas e bares onde se capta facilmente Internet por <\/span><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\"><i>wireless<\/i><\/span><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\">. Passeando um pouco, podemos observar locais de culto organizados por comunidade (igreja eti\u00f3pica, mesquita sudanesa, por exemplo). Mas afinal esta \u201cJungle\u201d n\u00e3o \u00e9 uma selva? N\u00e3o. <\/span><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\">Resumindo, na \u201cJungle\u201d damo-nos cara a cara com tudo o que se tece num meio urbano normalizado dentro da economia capitalista, mas sem as estruturas do Estado (estradas cimentadas, transportes p\u00fablicos ou caixas de correio&#8230;). Se n\u00e3o fosse esta terra h\u00famida que emporcalha os sapatos e as cal\u00e7as de quem n\u00e3o vem preparado (melhor vir de galochas), a mis\u00e9ria a descoberto dos residentes e o facto de necessitarmos de pelos menos 20 minutos em bicicleta para chegar ao centro da cidade de Calais, pod\u00edamos imaginarmo-nos em qualquer outro lugar, pois, neste estranho aglomerado urbano j\u00e1 de si banalizado, toda a gente circula em liberdade noite e dia. At\u00e9 curiosos e jornalistas se apressam em massa desde h\u00e1 alguns meses para c\u00e1, contentes com convites para tomar algo num ou outro sal\u00e3o de ch\u00e1 gerido por afeg\u00e3os, e acabam mesmo por travar \u201cverdadeiros conhecimentos\u201d, n\u00e3o deixando escapar por\u00e9m a oportunidade para integrar a \u201cexperi\u00eancia\u201d nas respectivas reportagens. Mas perguntaria um leigo que tem visto muita televis\u00e3o: <\/span><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\"><i>Na \u201cJungle\u201d n\u00e3o h\u00e1 selvagens? <\/i><\/span><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\">N\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1. A grande descoberta do s\u00e9culo: os migrantes s\u00e3o seres humanos como outros quaisquer. <\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\">\u00c9 de ter em conta que os activistas <\/span><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\"><i>No Border<\/i><\/span><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\"> presentes est\u00e3o cada vez menos inclinados a responder \u00e0s quest\u00f5es dos jornalistas desde que os mesmos foram acusados de \u201c<\/span><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\"><i>incitar os migrantes ao motim<\/i><\/span><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\">\u201d. Na Jungle h\u00e1 numerosos activistas e militantes humanit\u00e1rios, sobretudo brit\u00e2nicos. Segundo a associa\u00e7\u00e3o local Albergue de Migrantes (<\/span><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\"><i>Auberge des Migrants<\/i><\/span><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\">), a mediatiza\u00e7\u00e3o da sensacional fotografia do pequenino Aylan encontrado sem vida na praia turca contribuiu para a chegada de novos volunt\u00e1rios brit\u00e2nicos. Da\u00ed n\u00e3o se achar estranho cruzarmo-nos com estudantes, trabalhadores ou desempregados vindos do outro lado da Mancha para dedicarem fins-de-semana e f\u00e9rias \u00e0 ajuda humanit\u00e1ria permanente (distribui\u00e7\u00e3o de roupa, centro de informa\u00e7\u00e3o, aulas de alfabetiza\u00e7\u00e3o, etc.).<\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\">Salta aos olhos at\u00e9 que ponto a vida pode ferver na Jungle quando observamos o contraste que esta real\u00e7a com a cidade cemit\u00e9rio que parece ser Calais. F\u00e1bricas abandonadas, o centro desertificado, casas e apartamentos desbaratados \u00e0 venda e grupinhos fascistas que desferem ataques pelo crep\u00fasculo. A cidade do Norte atravessa uma forte crise social. Calais tem 26,2% de desempregados (duas vezes a m\u00e9dia na regi\u00e3o) e um resultado de 49% da Frente Nacional na elei\u00e7\u00f5es regionais de 2015. Como tal, os migrantes s\u00e3o os primeiros e \u00fanicos bodes expiat\u00f3rios da actual situa\u00e7\u00e3o. Natacha Bouchard, presidente da C\u00e2mara, acusa sistematicamente os migrantes pela perda de 40% da actividade comercial que desertou do centro da cidade, afirmando que estes \u201c<\/span><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\"><i>metem medo aos ingleses<\/i><\/span><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\">\u201d, popula\u00e7\u00e3o fronteiri\u00e7a na qual se baseou durante muito tempo a economia da regi\u00e3o com o turismo e\/ou o empreendimento estrangeiro. Ningu\u00e9m comenta os centros comerciais e hipermercados sem alma constru\u00eddos na periferia que parecem ser, numa cidade que viu desaparecer a sua ind\u00fastria t\u00eaxtil e mineira, o \u00fanico garante de emprego e fonte de rendimento de fam\u00edlias que consomem nessas mesmas grandes superf\u00edcies. Assim se veem fam\u00edlias a gritar enraivecidas da janelas das suas casas ao verem manifestantes em apoio aos migrantes grafitarem no muro da empresa alem\u00e3 LIDL \u201c<\/span><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\"><i>abaixo todas as fronteiras<\/i><\/span><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\">\u201d, como aconteceu na manifesta\u00e7\u00e3o do 21 de Janeiro. Parece mesmo haver suficientes raz\u00f5es que justificam que alguns calaisienses possam esbanjar \u00f3dio racista, seja por agress\u00f5es nocturnas organizadas a migrantes, seja por pais de \u201cfam\u00edlias honestas\u201d que encontramos em manifesta\u00e7\u00f5es de extrema-direita (\u201c<\/span><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\"><i>Calaisiens en col\u00e8re<\/i><\/span><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\">\u201d) ao lado de patr\u00f5es ligados \u00e0 C\u00e2mara do Com\u00e9rcio e da Ind\u00fastria portu\u00e1ria da cidade. Manifesta\u00e7\u00f5es estas onde n\u00e3o \u00e9 raro ouvir fascistas camuflados com roupas militares gritar que \u201c<\/span><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\"><i>em breve limpar\u00e3o a Jungle<\/i><\/span><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\">\u201d.<\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\">At\u00e9 hoje, testemunham-se v\u00e1rios processos judiciais relacionados com golpes e ferimentos de migrantes, activistas e intervenientes humanit\u00e1rios, uma grande parte destes em seguida arquivados. Neste ambiente, \u00e9 preciso n\u00e3o esquecer os 1300 pol\u00edcias de choque que patrulham dia e noite a cidade e arredores, dando um ar austero e frio que relembra outras \u00e9pocas mais inflamadas da hist\u00f3ria da Fran\u00e7a ocupada. Com estes elementos, podemos perceber porque \u00e9 que os turistas ingleses evitam tal encantada pasmaceira. Alias, encontr\u00e1mos muitos ingleses pela cidade, nos caf\u00e9s e nos bares&#8230; Ignoravam estes que havia \u201c<\/span><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\"><i>migrantes que metem medo<\/i><\/span><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\">\u201d \u00e0 solta pela cidade? N\u00e3o, conscientes da situa\u00e7\u00e3o, voluntariaram-se para os ajudar.<\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\">A pr\u00f3pria exist\u00eancia e o estatuto da \u201cJungle\u201d de Calais t\u00eam heran\u00e7a numa hist\u00f3ria movimentada que come\u00e7ou muito antes da abertura do c\u00e9lebre centro de Sangatte.<\/span> <span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\">Como indica um artigo datado de 2009 no n.\u00b0187 do jornal <\/span><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\"><i>Courant Alternatif<\/i><\/span><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\">, \u201c<\/span><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\"><i>esta hist\u00f3ria come\u00e7ou em 1995, data de chegada dos primeiros \u2018refugiados\u2019 de origem polaca. Depois em 1997, com a vinda de cerca de quarenta Romani de origem checa recusados pela Inglaterra. Em aux\u00edlio, algumas associa\u00e7\u00f5es criam o primeiro \u2018comit\u00e9 de apoio a refugiados\u2019. Seguem-se ent\u00e3o as guerras imperialistas levadas a cabo pelos ocidentais na Jugosl\u00e1via, no Afeganist\u00e3o e no Iraque, que levam milhares de pessoas a partir, muitas delas mergulhando bruscamente em direc\u00e7\u00e3o ao Estreito da Mancha. \u00c9 assim que, em 1998, os bombardeamentos da NATO na S\u00e9rvia conduzem jovens kosovares e respectivas fam\u00edlias at\u00e9 \u00e0s praias de Calais, seguindo-se milhares de iraquianos e afeg\u00e3os.\u201d <\/i><\/span><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\">Em 1999 abre o centro de acolhimento de Sangatte, gerido pela Cruz Vermelha. O edif\u00edcio \u00e9 um armaz\u00e9m de 27 000m<\/span><sup><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\">2<\/span><\/sup><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\"> pertencente \u00e0 Eurotunnel e requisitado pelo Estado. Previsto para 800 pessoas no m\u00e1ximo, rapidamente d\u00e1 abrigo a 1800. Voluntariados sucessivos aparecem para ajudar os migrantes clandestinos, o que faz com que rapidamente o abrigo se saturou, acabando por fechar em 2002. Em tr\u00eas anos, entre 60 000 e 70 000 pessoas transitaram neste centro. Segue-se ainda a ocupa\u00e7\u00e3o destes edif\u00edcios abandonados ou de campos no meio do bosque conhecidos pelo nome de \u201cjungles\u201d \u2013 palavra com origem em \u201cdzanghal\u201d que quer dizer floresta em Pashtun<\/span><sup><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\">1<\/span><\/sup><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\">. As autoridades locais tudo fizeram para destruir sistematicamente as tentativas de instala\u00e7\u00e3o por parte dos migrantes, pol\u00edtica esta que se enquadra numa \u00e9poca em que as emboscadas e a recondu\u00e7\u00e3o de sem-pap\u00e9is \u00e0 fronteira se tornou um orgulho para os sucessivos governos franceses, a come\u00e7ar por Nicolas Sarkozy, ministro da Administra\u00e7\u00e3o Interna entre 2005 e 2007. Em 2009, o desmantelamento brutal de uma \u201cjungle\u201d onde viviam mais de 700 pessoas \u00e9 filmada e integrada no filme \u201c<\/span><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\"><i>Qu\u2019ils reposent en r\u00e9volte<\/i><\/span><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\">\u201d. de Sylvain George, uma das mais belas testemunhas cinematogr\u00e1ficas da passagem tempor\u00e1ria dos migrantes em Calais e que permite dar alguma visibilidade ao fen\u00f3meno at\u00e9 a\u00ed pouco abordado pelos m\u00e9dias. A partir de Setembro de 2014, o n\u00famero de migrantes na cidade explode exponencialmente. Em Junho de 2015, contamos 3000 e, em Outubro, cerca de 6000 pessoas apertadas neste \u201c<\/span><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\"><i>campo de v\u00e1rzea<\/i><\/span><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\">\u201d chamado \u201cJungle\u201d, vindos de diversos lugares: Afeganist\u00e3o, Ir\u00e3o, Paquist\u00e3o, Curdist\u00e3o, Palestina, Som\u00e1lia, Egipto, Kuwait, Sud\u00e3o, Eritreia e S\u00edria. <\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\">Face a uma press\u00e3o demogr\u00e1fica que se amplifica, as associa\u00e7\u00f5es locais e as ONG lan\u00e7am-se numa racionaliza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o. Constroem-se infra-estruturas colectivas, furos de \u00e1gua, traz-se material para construir barracas e tendas. Os habitantes organizam-se por comunidades, nomeadamente para a alimenta\u00e7\u00e3o e quest\u00f5es religiosas. As mulheres e fam\u00edlias s\u00e3o alojadas \u00e0 parte. Ao passearmos cruzamo-nos sobretudo com rapazes, muitos deles menores, agarrados aos telem\u00f3veis que carregam em tendas equipadas com electricidade, passam o tempo \u00e0 espera da noite em que tentar\u00e3o saltar \u00e0s escondidas para dentro de um cami\u00e3o ou escalar os altos gradeamentos farpados arriscando a vida. Alguns, equipados com fatos de mergulho baratos tentar\u00e3o atravessar a nado os 34 quil\u00f3metros que os separam da costa inglesa. Tudo se encara com um certo sorriso. Sabem distinguir quem os apoia e quem s\u00e3o os inimigos, n\u00f3s recebemos sorrisos, a pol\u00edcia recebe insultos. Perguntam alguns, em conversa connosco, se em Portugal \u00e9 f\u00e1cil obter passaportes, mas nada sabemos responder, pois nunca fomos estrangeiros em Portugal, e na Fran\u00e7a somos apenas semi-estrangeiros, que privil\u00e9gio termos nascido na Eurol\u00e2ndia!<\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\">Que podemos n\u00f3s fazer? Durante bastante tempo, no \u00e2mbito da lei Besson, posta em pr\u00e1tica desde 2011 pelo ministro da Imigra\u00e7\u00e3o, acolher um refugiado era punido por lei, dando direito at\u00e9 5 anos de pris\u00e3o e 30 000 euros de multa. S\u00f3 a partir de 2013, uma lei n\u00e3o punindo o acolhimento \u201c<\/span><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\"><i>desinteressado<\/i><\/span><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\">\u201d e \u201c<\/span><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\"><i>humanit\u00e1rio<\/i><\/span><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\">\u201d foi poss\u00edvel gra\u00e7as \u00e0 luta de v\u00e1rias associa\u00e7\u00f5es. Mas os refugiados n\u00e3o querem ficar em Fran\u00e7a, mas sim atravessar o Canal da Mancha, t\u00eam familiares e amigos do outro lado \u00e0 espera. E est\u00e3o dispostos a todos os riscos para alcan\u00e7arem o objectivo. Mesmo sendo punido por lei tentar passar um refugiado, alguns menos escrupulosos aproveitam este desespero e ousam organizar-se at\u00e9 ao interior da \u201cJungle\u201d, onde alguns comerciantes estabelecem contacto entre passadores e habitantes. Mas o pior inimigo continua a ser o Estado e as suas institui\u00e7\u00f5es r\u00edgidas.<\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\">A cada tentativa de organiza\u00e7\u00e3o de um lugar vivencial para os migrantes em Calais, o Estado sempre respondeu com expuls\u00f5es, desmantelamento, repress\u00e3o e controlo. Ocupados, os campos ao longo da praia ou as \u201cjungles\u201d, o destino \u00e9 sempre o mesmo: destrui\u00e7\u00e3o dos habitats (por muito prec\u00e1rios que sejam), expuls\u00e3o dos residentes, encarceramento em centros de deten\u00e7\u00e3o e at\u00e9 mesmo confisca\u00e7\u00e3o de todo e qualquer material permitindo reocupar ou reconstruir. Em Calais, o Estado Franc\u00eas sistematizou a t\u00e9cnica da terra queimada. J\u00e1 em Janeiro deste ano, a pol\u00edcia tinha evacuado a cassetete e com uma chuvada de g\u00e1s lacrimog\u00e9neo uma extensa parte do terreno \u00e0 margem da auto-estrada. No dia seguinte, bulldozers esmagaram as tendas e material que n\u00e3o p\u00f4de ser salvo a tempo pelos habitantes. Na noite seguinte, granadas da pol\u00edcia acabaram por pegar fogo aos escombros, gerando o p\u00e2nico geral. Em Fevereiro, o governo de Manuel Valls anunciou a evacua\u00e7\u00e3o de toda a zona no sul da Jungle, zona que continha 80% dos habitantes e a maior parte dos espa\u00e7os comuns e de conv\u00edvio (escola, centro de informa\u00e7\u00e3o, igreja, etc.). Mais uma vez, g\u00e1s lacrimog\u00e9neo, cacetadas, destrui\u00e7\u00e3o de todo o material, multiplica\u00e7\u00e3o do medo e inc\u00eandios. Apenas alguns lugares onde as ONG t\u00eam interven\u00e7\u00e3o quotidiana e de utilidade colectiva conseguiram ser poupados por uma mobiliza\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica dirigida por essas mesmas organiza\u00e7\u00f5es. \u00c9 que entretanto, o malandro do Estado, construiu um campo hiper-securizado em pleno centro da \u201cJungle\u201d e sonha transform\u00e1-lo em modelo de vida, como que um laborat\u00f3rio destinado a experimentar o que pode vir a ser generalizado mais tarde. E nada melhor que faz\u00ea-lo com quem menos se pode defender, pois as condi\u00e7\u00f5es de vida s\u00e3o t\u00e3o m\u00edseras e o lugar t\u00e3o bem velado que poucos migrantes ousar\u00e3o a aventura. \u201c<\/span><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\"><i>Desta forma o campo \u2018humanit\u00e1rio\u2019 sem \u00e1gua, sem duche, nem cozinha, acabar\u00e1 num gradeamento com c\u00e2maras de vigil\u00e2ncia e acesso biom\u00e9trico, chamado \u2018container\u2019 e constru\u00eddo por uma sociedade em que o patr\u00e3o \u00e9 um antigo membro da Direc\u00e7\u00e3o de Informa\u00e7\u00e3o Militar. Mas a s\u00e9rio que n\u00e3o querem ir viver para estes containers?\u201d, <\/i><\/span><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\">ironizava um militante no site Lundimatin<\/span><sup><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\"><a class=\"sdfootnoteanc\" href=\"#sdfootnote1sym\" name=\"sdfootnote1anc\">1<\/a><\/span><\/sup><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\">Mas nada disto \u00e9 novo. Calais sempre foi um modelo experimental no tratamento policial das quest\u00f5es sociais, prefigurando em si o modelo da Fran\u00e7a de amanh\u00e3. Se diss\u00e9ssemos que a \u201cJungle\u201d \u00e9 ultra-vigiada pela pol\u00edcia de choque que dia e noite a ronda o acampamento, ou que est\u00e1 cheia de b<\/span>\u00f3<span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\">fia apenas perto dos acessos aos Ferry e no Eurotunnel o mal poderia parecer distante do resto da popula\u00e7\u00e3o local e da sociedade em si, mas infelizmente toda a cidade de Calais est\u00e1 exposta a esta condi\u00e7\u00e3o. O jornal <\/span><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\"><i>Courant Alternatif<\/i><\/span><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\"> alertava j\u00e1 em 2009 para uma situa\u00e7\u00e3o digna das mais medonhas descri\u00e7\u00f5es da fic\u00e7\u00e3o-cient\u00edfica: \u201c<\/span><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\"><i>O porto, onde a C\u00e2mara do Com\u00e9rcio e da Ind\u00fastria colocou o seu pr\u00f3prio servi\u00e7o de seguran\u00e7a, est\u00e1 hoje cercado de muros e arames farpados electrificados. Mais ainda, foi equipado com um sistema de alarme, fibras \u00f3pticas e c\u00e2maras t\u00e9rmicas. Em Coquelles (sub\u00farbio de Calais de onde partem os TGV), a sociedade Eurotunnel instalou 280 c\u00e2maras de vigil\u00e2ncia para 360 agentes de seguran\u00e7a.<\/i><\/span><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\"> [\u2026] <\/span><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\"><i>Uma parte dos controlos fronteiri\u00e7os est\u00e1 nas m\u00e3os de empresas privadas. Cada ve\u00edculo \u00e9 examinado com meios materiais militares pertencentes \u00e0s for\u00e7as armadas inglesas. Entre scanners verificam o interior dos reboques, detectam batidas de cora\u00e7\u00e3o e h\u00e1 sondas que calculam emiss\u00f5es respirat\u00f3rias de CO2 [\u2026] Calais oferece um mercado atractivo aos empres\u00e1rios da \u201cseguran\u00e7a\u201d. Est\u00e1-lhes desta forma consagrado um or\u00e7amento de 12 milh\u00f5es de euros anual<\/i><\/span><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\">. \u201c <\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\">Em Calais como em qualquer parte perto da Fortaleza Europa, a luta contra as fronteiras liga-se \u00e0 industrializa\u00e7\u00e3o das modalidades de controlo, a uma repress\u00e3o severa e a uma opini\u00e3o pouco favor\u00e1vel \u00e0 presen\u00e7a de popula\u00e7\u00f5es migrantes no \u201cseu\u201d territ\u00f3rio. O trabalho do colectivo <\/span><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\"><i>Calais Solidarity Migrant<\/i><\/span><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\"> \u00e9 um exemplo. Por um lado, fonte primeira de informa\u00e7\u00f5es, os militantes ancorados no terreno s\u00e3o os animadores da rede transnacional <\/span><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\"><i>No Border<\/i><\/span><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\">, acompanhando de perto os migrantes da \u201cJungle\u201d e agindo directamente contra as fronteiras. Aparecem hoje como a mais s\u00f3lida resist\u00eancia ao controlo e \u00e0 repress\u00e3o dos Estados.<\/span><\/p>\n<p class=\"western\" align=\"justify\"><span style=\"font-family: Cambria,Times New Roman,serif\">\u00a0<\/span><\/p>\n<div id=\"sdfootnote1\">\n<p class=\"sdfootnote-western\"><a class=\"sdfootnotesym\" href=\"#sdfootnote1anc\" name=\"sdfootnote1sym\">1<\/a>https:\/\/lundi.am\/<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hugo Dos Santos e Pedro Fidalgo Imposs\u00edvel compreender a situa\u00e7\u00e3o dos migrantes de Calais sem ter em conta o territ\u00f3rio. Ao mesmo tempo fronteira, zona industrial empobrecida e campo de experimenta\u00e7\u00e3o de um Estado Policial, esta cidade do Norte da Fran\u00e7a est\u00e1 recheada de tens\u00f5es bem fora do comum. \u00c9 bastante revelador que o maior [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":11202,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-107","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ervarebelde.noblogs.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/107","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ervarebelde.noblogs.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ervarebelde.noblogs.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ervarebelde.noblogs.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/11202"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ervarebelde.noblogs.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=107"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/ervarebelde.noblogs.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/107\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":180,"href":"https:\/\/ervarebelde.noblogs.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/107\/revisions\/180"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ervarebelde.noblogs.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=107"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ervarebelde.noblogs.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=107"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ervarebelde.noblogs.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=107"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}